Do fazer psiquiátrico

O fazer psiquiátrico como escuta, ética e cuidado

Muitos alunos comumente me perguntam o porquê de eu ter decidido fazer psiquiatria. Digo que, a meu ver, é a especialidade médica que mais possibilita adentrar no interior do paciente; saber de suas especificidades, suas fragilidades, suas potências, seus segredos. É como se, em cada paciente novo, eu adentrasse num livro de histórias, sendo o protagonista o próprio paciente daquela narrativa. Eu, sendo psiquiatra, entro como personagem momentaneamente coadjuvante: ajudo com que o paciente se integre e se entregue naquilo que ele enxerga como sua essência e como papel em sua história de vida. Ajudo ao afastar tudo aquilo que paralisa o paciente. Isso é o fazer psiquiátrico.

O mais interessante é que nenhuma outra especialidade médica se propõe a ser tão próxima e ao mesmo tempo tão intrínseca ao paciente. Isso me fascina.

Em sendo o físico o de mais fácil acesso e o psíquico de acesso mais dificultoso ou hermético, o psiquiatra, portanto, é aquele que mais consegue se aproximar do intangível da alma do paciente e, consequentemente, de afastar aquilo que desvirtua a alma e a atrapalha em ser pura e própria.

Há, no fazer psiquiátrico, uma espécie de pacto silencioso. O paciente não entrega apenas sintomas, diagnósticos ou queixas. Ele entrega fragmentos de si, lembranças que às vezes nunca haviam sido verbalizadas, afetos que permaneciam sem nome, conflitos que sequer haviam sido reconhecidos como tais. Até porque, até ali, não havia ambiente e abertura propensa para tais reflexões e verbalizações. Muito do que é refletido só o é quando verbalizado, e em não sendo verbalizado, não se é refletido.

Ser psiquiatra exige aprender a escutar para além da fala. Exige sensibilidade para perceber aquilo que não se diz, o que se evita, o que se repete, o que emerge em lapsos, silêncios e contradições. Muitas vezes, o sofrimento psíquico não se apresenta de forma clara ou organizada. Ele surge fragmentado, confuso, atravessado por culpa, vergonha ou medo. Cabe ao psiquiatra sustentar esse caos inicial sem a ânsia de ordenar prematuramente, respeitando o tempo interno do paciente. E também entendendo os limites e a ética na relação que ali se instaura.

O psiquiatra não examina apenas um órgão, mas uma história que está em movimento. Cada encontro carrega vínculos, perdas, expectativas, frustrações e desejos. O diagnóstico, quando existe, jamais pode ser reduzido a um rótulo. Ele é apenas uma ferramenta provisória, um mapa imperfeito, que deve se prostrar à singularidade daquele sujeito.

Talvez por isso a psiquiatria seja, ao mesmo tempo, tão exigente e tão transformadora. Exige estudo contínuo, rigor técnico, atualização científica, mas também exige disponibilidade emocional, humildade e capacidade de reconhecer que nem tudo pode ser resolvido, controlado ou curado. Muitas vezes, o cuidado está justamente em acompanhar. Como dizia Hipócrates, pai da medicina: Primum non nocere, que se traduz por “Primeiro, não causar dano”. Às vezes, sustentar o silêncio é justamente a chave para não causar um mal. O sofrimento existe e deve ser vivenciado – até porque é estruturante se experienciado com algum grau de resiliência e reflexão; o que deve ser cessado é o excesso do sofrer – este, virtualmente falando, é nocivo por si só, e se expande de maneira independente em mais sofrer e em mais paralização.

E para os alunos que se identificam com tudo isso, nenhuma outra especialidade tem tanto a te acolher.

24 de dezembro de 2025.

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