Transtorno do jogo de aposta: quando procurar ajuda?
Nos últimos anos, as apostas online deixaram de ser um hábito ocasional para se tornar, para uma parcela significativa da população brasileira, um problema de saúde.
A Organização Mundial da Saúde reconhece a condição na Classificação Internacional de Doenças (CID-11, código 6C50), e o principal manual de diagnóstico usado por psiquiatras no mundo todo, o DSM-5, também a descreve como um transtorno aditivo, sendo, até hoje, a única dependência comportamental (ou seja, não ligado a uma substância química) reconhecido formalmente ao lado de dependências como álcool e outras drogas.
A diferença entre o jogador casual e a pessoa com o transtorno não está na frequência com que se aposta. Quem desenvolveu o transtorno continua apostando mesmo sabendo dos prejuízos financeiros, familiares e emocionais que isso está causando.
Por que as apostas conseguem enganar o cérebro?
Existe uma explicação biológica para isso, e ela ajuda a entender por que “força de vontade” sozinha dificilmente resolve o problema. A simples expectativa de ganhar libera dopamina no cérebro, que é o mesmo neurotransmissor envolvido no prazer e na recompensa. Curiosamente, até as quase-vitórias (quando a pessoa “quase ganhou”) ativam esse circuito de forma parecida com o que acontece no uso de substâncias.
Com o tempo, esse sistema desenvolve tolerância, ou seja, a pessoa precisa apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma excitação de antes. Some-se a isso uma redução da atividade no córtex pré-frontal, que é a área responsável pelo controle de impulsos e pela tomada de decisões racionais, e o resultado é um ciclo difícil de interromper sozinho.
Sinais de alerta que merecem atenção
Algumas mudanças de comportamento costumam aparecer antes que a situação se torne grave. Vale ficar atento quando a pessoa:
- Pensa com frequência em apostas e planeja a próxima jogada ou calcula formas de conseguir dinheiro para apostar;
- Precisa apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção de antes;
- Volta a apostar logo depois de perder, na tentativa de “recuperar o prejuízo”;
- Mente ou esconde de familiares o quanto está apostando ou perdendo;
- Abandona amigos, hobbies ou compromissos profissionais por causa do jogo;
- Usa dinheiro destinado a contas essenciais para apostar.
No campo emocional, é comum observar irritabilidade e ansiedade quando a pessoa tenta parar, episódios de culpa e vergonha após as perdas, dificuldade para dormir e queda no rendimento profissional. Em casos mais avançados, pode haver ideação suicida, um sinal que exige atenção e ajuda imediatas.
Como é feito o diagnóstico
O DSM-5 estabelece nove critérios para o Transtorno do Jogo, entre eles a preocupação excessiva com apostas, a tolerância crescente, as tentativas frustradas de parar, o uso do jogo como fuga emocional e a dependência de terceiros para resolver crises financeiras causadas pelo vício.
Para o diagnóstico, é preciso que a pessoa apresente pelo menos quatro desses critérios em um período de doze meses, com sofrimento ou prejuízo significativo na vida.
Esse diagnóstico, porém, deve sempre ser feito por um profissional de saúde mental qualificado e não a partir de uma autoavaliação.
O tratamento funciona e costuma ser multidisciplinar
Uma das informações mais importantes sobre o transtorno do jogo é que existe tratamento eficaz e com respaldo científico.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). É a abordagem com maior evidência científica para o Transtorno do Jogo. Trabalha três frentes principais: a reestruturação de crenças distorcidas sobre o jogo (como a ilusão de que existe uma “estratégia vencedora”), o reconhecimento de desencadeadores específicos com o desenvolvimento de estratégias para evitá-los, e o fortalecimento de recursos emocionais para lidar com estresse e problemas financeiros sem recorrer às apostas.
Entrevista Motivacional. Especialmente útil nas fases iniciais, quando a pessoa ainda resiste a reconhecer o problema. É uma técnica não confrontacional, que ajuda o paciente a encontrar sua própria motivação para mudar.
Farmacoterapia. Temos evidências de que algumas medicações podem ser úteis para tratar o transtorno, assim como condições comumente associadas, como a depressão, a ansiedade e a dependência de outras substâncias psicoativas.
Grupos de apoio. Os Jogadores Anônimos, baseados no modelo dos 12 Passos, funcionam como suporte complementar contínuo, e costumam apresentar melhores resultados quando combinados com acompanhamento profissional do que quando usados isoladamente.
Onde buscar ajuda gratuita
O SUS oferece tratamento gratuito por meio dos CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), com equipe multidisciplinar. O caminho pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima ou no próprio CAPS AD, que deve possuir portas abertas para o acolhimento de indivíduos com sofrimento relacionado às apostas.
Procure ajuda com um profissional de saúde mental.
Dr. William Augusto – Médico Psiquiatra
Consultas psiquiátricas e perícias
CRM 213091 | RQE 109781
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Tel: (19) 93619-6463
